Circuncisão neonatal: fazer ou não fazer?

Um tema bastante polêmico que permeia o nascimento de um menino é a realização ou não de circuncisão, também chamada de postectomia neonatal, que é a circuncisão realizada ainda nas primeiras semanas de vida.

Ela pode ser realizada por motivos religiosos (como para judeus e muçulmanos), culturais ou preventivos.

É uma das cirurgias mais antigas que se tem conhecimento, e também uma das mais frequentemente realizadas nos dias de hoje. Estima-se que um em cada 3 homens no mundo são circuncidados.

O debate sobre os benefícios de realizar-se preventivamente a circuncisão neonatal é antigo.

Na grande maioria dos países do mundo, a circuncisão neonatal é realizada em uma parcela significativa dos homens seja por motivos religiosos ou sócio-culturais.

Atualmente segundo a OMS, na América do Norte, cerca de 70% dos meninos realizam circuncisão, na África mais de 80%, na Austrália 60%, na Europa 20% e na Ásia 20%.

No Brasil, a circuncisão neonatal é raramente realizada. Exatamente por este motivo, avaliamos em um estudo a necessidade de realizar-se esta cirurgia por doenças relacionadas ao pênis. Avaliamos quantos homens brasileiros necessitaram realizar este procedimentos pelo SUS em 16 anos. Se considerarmos apenas crianças e jovens, a circuncisão foi realizada em 10% desta população. Nos EUA, onde há dados mais fidedignos e um melhor acesso ao sistema de saúde, estima-se que 50% dos homens que não foram submetidos a circuncisão neonatal acabam tendo que fazê-la ao longo da vida.

Recentemente um estudo extremamente importante e bem conduzido ganhou notoriedade, e inclusive mudou as recomendações de renomadas instituições internacionais. Em 2007, um estudo patrocinado pela fundação Bill &  Melinda Gates e realizado na África demonstrou que homens circuncidados apresentaram um risco 60% menor de contrair infecção pelo HIV. Cerca de onze mil homens foram divididos em dois grupos. Metade destes homens permaneceu com o prepúcio íntegro enquanto a outra metade foi submetido a circuncisão. Após cerca de dois anos de acompanhamento, os homens submetidos a circuncisão apresentaram 66% menos risco de contaminação pelo vírus da AIDS.  Apenas a título de comparação, a eficácia da camisinha na prevenção do HIV é estimada em 80%. Observou-se ainda expressiva redução no contágio por herpes, sífilis e HPV.

À partir destes dados impressionantes, passou-se a recomendar a circuncisão de adultos e principalmente a circuncisão neonatal como importante medida de saúde pública em países com altos índices de HIV. E isto recomendado por algumas das mais renomadas instituições de saúde no mundo.

Quando se fala em um procedimento preventivo, é importante considerar o que pode dar errado, para não expor um bebê a um risco desnecessário. As complicações mais comuns para qualquer procedimento cirúrgico são sangramento e infecção. Segundo estudos avaliando mais de 100.000 meninos submetidos a circuncisão neonatal, os riscos destas complicações foram extremamente baixos, em torno de 0,19%. O risco de mortalidade foi zero.

<span “mso-bidi-font-size:=”” 10.0pt;font-family:arial;mso-bidi-font-family:arial”=””>Para chegar a recomendações objetivas sobre este assunto, foi realizada uma Força-Tarefa entre as principais entidades de saúde nos EUA interessadas neste assunto, incluindo  o CDC,   Academia Americana de Pediatria, Academia Americana de Médicos de Família e o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas. Os especialistas responsáveis  por   esta   força-tarefa   avaliaram os tópicos mais relevantes sobre a circuncisão  neonatal e chegaram a conclusões de acordo com princípios  de medicina baseada em evidência.  Este grupo chegou às seguintes recomendações:

<span “font-family:arial;mso-fareast-font-family:arial;mso-bidi-font-family:=”” arial;mso-ansi-language:en-us”=””>-       <span “font-family:arial;mso-bidi-font-family:arial;mso-ansi-language:=”” en-us”=””>os benefícios da circuncisão neonatal são maiores do que os riscos, incluindo redução no risco de doenças do prepúcio, doenças sexualmente trasnmissíveis, câncer de penis e infecções urinárias. Justifica-se portanto o acesso às famílias que optam por este procedimento.

<span “font-family:arial;mso-fareast-font-family:arial;mso-bidi-font-family:=”” arial;mso-ansi-language:en-us”=””>-       <span “font-family:arial;mso-bidi-font-family:arial;mso-ansi-language:=”” en-us”=””>no período neonatal o procedimento pode ser realizado de forma segura e eficiente com anestesia local.

<span “font-family:arial;mso-fareast-font-family:arial;mso-bidi-font-family:=”” arial;mso-ansi-language:en-us”=””>-       <span “font-family:arial;mso-bidi-font-family:arial;mso-ansi-language:=”” en-us”=””>O  custo de se fazer o procedimento no período neonatal é muito menor, e recomenda-se em termos de saúde pública que todos devem ter acesso à possibilidade de se realizar circuncisão neonatal. Em geral o procedimento é realizado ainda na maternidade, por volta do segundo dia de vida.

<span “font-family:arial;mso-fareast-font-family:arial;mso-bidi-font-family:=”” arial;mso-ansi-language:en-us”=””>-       <span “font-family:arial;mso-bidi-font-family:arial;mso-ansi-language:=”” en-us”=””>Cabe a todo profissional que participa do atendimento de uma gestante e parturiente de um filho homem garantir aos pais o acesso às informações sobre a circuncisão neonatal ainda durante a gestação. A decisão final sobre fazer ou não a circuncisão neonatal deve ser tomada pelos pais.